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Dia sem carros : a grande tanga (21/09/02)
Está na moda celebrar as coisas com "dias". Dia de luta contra a sida ou contra o cancro, dia da mulher, da criança, da mãe e do pai, dia do trabalho, da independência: não faltam exemplos para ver que o homem é um ser suficientemente estúpido para esquecer que há certas coisas preciosas que devem ser preservadas ou direitos pelos quais é preciso lutar. Em vez de ter um sentido constante de respeito pelo mundo que lhe permite viver, o inteligentíssimo homo-sapiens que tanto gosta de aprender, que inventou bombas atómicas, transístores e aeronaves, precisa de marcar um dia no seu calendário para se dedicar aos problemas vitais do planeta.
A poluição é um deles, sendo o carro em grande parte responsável por emissões excessivas de partículas e congestionamento das cidades. Soluções? Várias. Entre outras e claramente a mais popular: a bicicleta.
Á priori, Portugal é um país normal, libertado da ditadura há quase 30 anos, membro da UE há quase 20, supondo-se portanto que está mais do que à altura de acompanhar o "o comboio" da modernidade. Há certamente muitos sucessos mas o ambiente é claramente o maior fracasso da sociedade portuguesa.
A bicicleta sofreu da evolução da imagem social que o carro transmite o carro e deste modo está cada vez mais dificultado o seu uso. Não existe reconhecimento por parte dos automobilistas, um código pré-histórico relega o velocípede na categoria dos veículos a tracção animal, tirando-lhe qualquer proveito das regras de base de prioridade. Paradoxalmente Portugal tem uma rede rodoviária em péssimo estado e de péssima qualidade e muitas situações de prioridade à direita (o que nos outros países tem tendência a desaparecer).
Os governos e as próprias autarquias, nada ou pouco fazem para devolver à bicicleta o seu lugar na estrada. Lisboa venta-se das primeiras ciclo vias mas aquelas para já só servem ao fim de semana e não para uso diário. Aveiro, lançou a ideia do aluguer gratuito de bicicletas mas em termos de infra-estruturas a cidade não mostra uma grande partilha entre velocípedes e automóveis.
Quanto ao Porto, é a cidade que, se o concurso da cidade europeia mais anti-bicicleta existisse, ganharia sem dúvida. Com todas as obras previstas pelos programas do Porto 2001, Polis, Metro do Porto, algumas já executadas, é fácil de adivinhar que a bicicleta não terá lugar na cidade nova que vai nascer. É pena que as duas centenas de km de ciclo vias, integradas no traçado das linhas do “Tram” de Estrasburgo não tenham inspirado os engenheiros que trouxeram de lá a base do projecto do metro do Porto. É pena não haver uma ciclo via na marginal da Foz até ao Freixo, na Avenida da Boavista ou na circunvalação. É pena não haver ciclo via até Matosinhos, Vila do Conde ou
Trofa.
Depois de tudo isto, percebe-se a finalidade do dia sem carros. O evento não passa de mais uma oportunidade para os políticos "venderem" algum protagonismo ambiental. O mesmo protagonismo que a conferência de Joanesburgo, que fazia manchete mais por causa da violência que se esperava, do que propriamente medidas concretas a favor do planeta.
Aqui em Portugal, de uma outra forma, surgem algumas polémicas sobre comentários datados de uma ano de um actual ministro ligado aos transportes: "o dia sem carros é folclore ambiental". Este ano já apoia a iniciativa...
Surgem também os actores. Podemos assistir na televisão, a um Narciso Miranda todo molhado e todo contente de poder demonstrar que se pode ir para o trabalho de bicicleta mesmo com grandes chuvas. Fiquei triste, de ver que um homem supostamente inteligente tentasse insinuar que não é perigoso andar de bicicleta em Matosinhos, ainda menos com tempo de chuva e sem capacete. Ele só ajudou a mistificar ainda mais o uso da bicicleta. Senhor Miranda, quem é que quer ficar molhado como você ficou? Ninguém. As pessoas querem conforto e para isso existem guarda-lamas, casacos de chuva, luvas, etc. Suponho que esta cena ajuda na sua imagem de político mas a bicicleta, essa, só ficou pior.
Antes de se participar no evento como o dia sem carros deve-se incentivar o uso da bicicleta, é preciso trabalhar no sentido de facilitar a vida a todos aqueles que querem usar a bicicleta como modo de transporte nos dias com carros.
É preciso: actualizar o código da estrada, criar infra-estruturas para a circulação dos velocípedes, ajudar o mercado das bicicletas com subsídios ou baixa de impostos, criar benefícios fiscais para empresas cujos trabalhadores usem a bicicleta para chegar ao local de trabalho, criar benefícios fiscais para empresas que façam obras relacionadas com o uso da bicicletas pelos seus empregados (casas de banho, parques, vestuários).
O que não é preciso é mais hipocrisia e egoísmo político. Enquanto não houver vontade por parte dos eleitos de mudar as tantas coisas que devem ser alteradas para resolver o problema da mobilidade em ambiente urbano, o dia sem carros não passará de uma grande tanga.

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