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SuperTravessia  2004 (29/07/04)

Quem teria ousado afirmar há uns anos atrás que um dia pudesse ser organizada em Portugal uma prova de BTT como a SuperTravessia ?

11 dias de competição, 1200km de Bragança à Sagres quase sempre por caminhos de terra e trilhos numa altura em que o calor extremo do interior ibérico atinge valores infernais.

Uma pessoa, pelo menos, o teria feito : António Malvar.

Desde 1999 era possível, com a Travessia de Portugal Ciclonatur, ligar Rio de Onor a Sagres em 17 dias. No entanto, transformar este desafio de lazer numa prova competitiva foi certamente uma iniciativa audaciosa, corajosa e genial. Faz um pouco lembrar as loucuras que eram as primeiras provas ciclistas. Numa altura em que as estradas eram caminhos, as bicicletas eram pesadas e primitivas e as etapas tinham mais de 300 km. Era o tempo dos heróis da estrada e do fascínio pela aventura. Bem, esse tempo pode ter voltado.

Há quem diga que Portugal é um país pequeno mas atravessa-lo de Norte a Sul em BTT não deixa de ser um facto notável sobretudo quando é feito em apenas 11 dias debaixo de um calor arrasador e em ritmo de competição.

A 2ª edição da SuperTravessia, prova de BTT em regime de navegação por GPS, decorreu na perfeição do 24 de Junho ao 4 de Julho entre Bragança e Sagres.

Esta prova que já se pode considerar como uma clássica internacional do género foi designada com prova qualificativa para os 24 Hours of Adrenalin 2004 World Solo Championships. Contou com a participação de 5 Norte-Americanos que vieram até Portugal apanhar uma boa dose de BTT e descobrir todas as maravilhas que o nosso pais tem para oferecer.

Destaque para a Jacquie Phelan, famosa veterana do ciclismo norte-americano, primeira e várias vezes vencedora da NORBA, fundador da organização Women’s Moutain Bike & Tea Society (WOMBATS) e mulher de Charlie Cunhingham, primeiro especialista, desde 1977, na fábrica de quadros em alumínio. Impressionou toda a gente com o seu estilo extravagante e espontâneo tanto na sua bicicleta, feita pelo seu marido há 12 anos atrás às sua medidas, equipada com guiador de estrada e travões RollerCam (também desenvolvidos pelo marido e na moda no final do anos 80) como na sua maneira de ser em geral. Sempre alegre e muito interessada em tudo a que toca Portugal, os seus habitantes e a sua língua. Esteve sempre disposta em partilhar a sua historia e a sua imensa experiência sobre o mundo do ciclismo.

O seu talento para compor baladas sobre a SuperTravessia, os seus participantes e os seus organizadores enquanto o resto dos participantes descansava ou arranjava as bicicletas não impediu de ela ser a primeira mulher a participar e terminar a prova, num excelente 8º lugar.

De notar que esta classificação única está estabelecida em função de bonificações de tempo segundo a idade e sexo dos participantes. Assim numa etapa de 100 km, a Jacquie partia um pouco menos de 1 h antes da hora oficial de partida e alguns segundos depois do Cal Burgart.

Cal foi, sem dúvida, a outra figura invulgar desta SuperTravessia. Este Californiano de 61 anos, membro do San Diego Cyclo-Vets, campeão norte-americano na sua categoria em X-country e provas de endurância em 2003 vinha em Portugal para acrescentar a SuperTravessia à sua já longa colecção de provas duríssimas nas quais tinha participado em todo o mundo. E não vinha para fazer figuração... Este Senhor de barba e cabelo branco, que tinha dificuldades em ler as indicações do seu GPS tinha uma condição física tal que deu-se várias vezes ao luxo de andar mais rápido sozinho na frente do que nós atrás a andar em grupo. Também, quando lhe apetecia, parava para tirar fotografias...

Se não fossem os problemas mecânicos que teve de enfrentar o Cal não teria tido concorrência e teria ganho a prova com alguma facilidade. Quem aproveitou ao máximo destes problemas foram o Frederico Brandão e o Ricardo Melo.

O primeiro, foi indiscutivelmente o mais rápido da prova. À vontade em todos os terrenos soube gerir perfeitamente o seu esforço ao longo dos 11 dias e atacou nos momentos chaves, quando se desenhava uma vitoria bem merecida.

O outro português de destaque, Ricardo Melo, já participante na edição de 2003, na qual tinha acabado em 2º lugar, começou timidamente mas rapidamente, a sua experiência, a sua regularidade e o seu afinado sentido táctico deram os seus frutos. Chegou mesmo a dar um susto ao Frederico nas planícies alentejanas graças a um golpe táctico magistral aproveitando ao máximo o regulamento que permitia o uso de caminho livre (fora do trilho GPS) dentro das povoações.

Além de ser uma experiência muito exigente fisicamente, a SuperTravessia é também um enorme desafio psicológico : ultrapassar os problemas mecânicos, enfrentar a solidão durante muitos km, o cansaço e o repetitivo esforço de sacrifício torna-se dia após dia cada vez mais difícil. São muitas as vezes em que, no meio de tanto calor e sofrimento, a tentação de abandonar aumenta perigosamente. É a força mental que permite neste momentos manter a motivação para ir até ao fim.

Numa prova tão dura e longa como a SuperTravessia, o espirito de coesão entre os participantes fica naturalmente selado desde os primeiros instantes. Ao longo dos dias que trazem todos novas historias felizes ou infelizes, este espirito fica cada vez mais uniforme e reciproco. No fundo, partilhar o esforço e o sofrimento, suar para chegar ao mesmo destino, ajudar o seu companheiro a chegar ao fim e sermos ajudados quando precisamos são sentimentos nobres que não deixam ninguém indiferente.

É nisso que a SuperTravessia é especial. Afasta os limites de cada um sobre as suas capacidades desportivas e psicológicas até lá conhecidas, reúne diversas nacionalidades a volta de um espirito comum e aproxima as fronteiras geográficas dando uma visão diferente sobre o mundo e o pais que nos envolve. Tudo isto complementado por uma dedicação notável de uma organização completamente apaixonada pelo seu trabalho e empenhada em fazer do percurso uma espécie de carta genética que reflecte constantemente o seu próprio amor pela natureza e a sua visão do desporto.

As terras visitadas tocaram os participantes no coração do inicio até ao último dia : do Parque Nacional de Montezinho até as vistas deslumbrantes sobre as falésias da costa Vicentina. Da Serra da Malcata até as planícies do Alentejo,  da vista sobre o Douro e Tejo Internacional até a aproximação da lagoa do Alqueva, são tantas imagens que ficaram gravadas na memória dos que escolheram esta óptima maneira de conhecer umas das partes mais isoladas e bonitas de Portugal.

 

Etapa 1 : Bragança - Sendim
108 km – 2750m acumulado de subidas

A etapa mais dura no papel por causa do acumulado e da distância mas o tempo fresco e o facto de ser a primeira ajudaram para que não pareça tão dura. Mesmo assim até o km 80 e muitas vistas magnificas sobre o Parque de Montezinho, o percurso não permitia qualquer descanso, sempre a subir ou a descer geralmente em caminhos relativamente largos mas sempre com algumas pedras enganadoras. Consequência para mim : pneu rasgado e um furo lento que o Magikseal não conseguia selar a 100% logo ao km 30. Aquilo que devia ter sido a primeira ocasião de estimar o nível dos adversários tornou-se numa longa recuperação solitária. Tinha perdido muito tempo na avaria e tinha dificuldades em encontrar o meu ritmo de cruzeiro. Mesmo assim cheguei próximo dos da frente aproveitando um pouco dos muitos erros cometidos pelos norte-americanos poucos familiarizados com a navegação GPS. O Cal ganhou esta primeira etapa com 18 min de avanço sobre o Frederico Brandão e mostrou-nos logo o quanto difícil seria de alcançá-lo nos dias seguintes.

1º Cal Burgart                 5:34:20

2º Frederico Brandão       5:52:35

3º Ricardo Melo               5:56:41

4º Guillaume Kuchel        5:56:46

5º Darby Fultz                 6:01:04

 

Etapa 2 : Sendim - Freixo de Espada à Cinta
67 km – 1581m acumulado de subidas

Dizia-se que era uma etapa de descanso pois era a mais curta da Travessia mas tudo é relativo, depende do ritmo que se segue. Fiquei a saber, e ficou confirmado no resto da prova, que sou péssimo no primeiro quarto da prova. Correspondia à parte rápida da etapa, em caminhos largos com bom piso. Foi com muitas dificuldades que integrei-me no grupo da frente composto por Frederico, Ricardo, Paul Magnotto e Darby Fultz (dois norte-americanos), Nuno Gomes (o outro repetente da prova com o Ricardo) e o Sérgio Nunes. Seguiu-se a estes 15 primeiros km umas partes bem giras e muito mais técnicas feitas de single-tracks a subir e a descer, calçadas muito cansativas para quem ousasse subi-las na bicicleta e de uma zona engraçada onde o caminho desaparecia por cima de gigantescas pedras incrustadas no solo.

Depois do alto onde se podia admirar no fundo do vale um dos cotovelo do Douro, o grupo fragmentou-se aos poucos ate eu ficar na frente com o Frederico que, no entanto, não chegou comigo devido a um furo a uns 10 km da chegada.

1º Cal Burgart                  3:17:08

2º Guillaume Kuchel        3:31:15

3º Frederico Brandão       3:32:50

4º Nuno Gomes              3:34:03

5º Sérgio Nunes             3:34:35

 

Etapa 3 : Freixo de Espada à Cinta - Alfaiates
122 km – 2355m acumulado de subidas

Foi o dia do regresso às grandes distâncias.

Entrada do dia : 10 km a subir muito violentos logo à partida, uma longa descida até o Rio Douro com, claro, as devidas paisagens fantásticas sobre a parte internacional do rio, mas também com muitas travagens de urgência, muita pedra e um soberbo single-track técnico cuja parte a subir era com a bicicleta às costas.

O prato principal esperava por nós depois de atravessar o rio em Barca de Alva, 20 km a subir até Castelo Rodrigo, grande parte deles num vale fechado com o calor a martelar horrorosamente. Tinha decidido desde a partida de não seguir o ritmo elevado dos primeiros. Foi portanto em solitário que abordei esta subida do dia. O final para Castelo Rodrigo foi arrasador, uma parede de 1 km de alcatrão quase a derreter.

Também foi sozinho que ataquei a sobremesa do dia (muito indigesta, diga-se à passagem), 75 km de caminhos muito rolantes e sem grandes dificuldades mas muito monótonos e desmoralizantes. Foi, aliás uma surpresa quando, a uns 20 km do fim, comecei a ver ao longe o grupo da frente. Foi bom voltar a andar com os outros. A chegada foi animada pois depois de se ter enganado de caminho a 2 km do fim, o Frederico exprimiu toda a sua força em passar-me já dentro de Alfaiates para o segundo lugar.

Destaque nesse dia para o Sérgio Nunes que foi vitima de um furo na parte rápida da descida para Barca de Alva e de um monumental erro de navegação que lhe custou mais 20 km ao contador.

1º Cal Burgart                   5:46:46

2º Frederico Brandão        6:16:57

3º Guillaume Kuchel         6:17:15

4º Darby Fultz                  6:17:46

5º Ricardo Melo               6:18:08

 

Etapa 4 : Alfaiates - Monfortinho
85 km – 1800m acumulado de subidas

Esta foi a etapa do isolamento. Através do belo Parque Nacional da Malcata andamos 70 km sem passar por nenhuma povoação. Num piso com muita pedra solta propicio aos furos, um sobe e desce constante que dava cabo das pernas, andámos sempre num quarteto coeso composto por Frederico, Ricardo, Darby e eu. Na zona mais alta do traçado, onde andávamos num caminho-fronteira entre Portugal e Espanha, sempre na crista da Serra da Malcata,  podia-se dar uma volta de horizonte de 360º sem aperceber nenhum sinal de civilização (a não ser o caminhos e os corta-fogos). Quem diz isolamento diz falta de água. Devido à ausência de cafés e fontes durante quase todo o percurso, a organização forneceu um abastecimento mais ou menos á metade da prova. Faltavam então cerca de 35 km com uma única grande dificuldade ao km 62.

A parte final, 15 km ao longo do rio Erges, relativamente planos e geralmente com bom piso deixava prever uma conclusão fácil de um dia bem passado num grupo homogéneo. No entanto, ao entrar no vale, sentia-se que o ar estava aí preso e que a temperatura estava sensivelmente mais alta. Já estava um dia quente mas este vale do Erges foi um verdadeiro inferno. Como se não bastasse, também foi o sítio escolhido pelo Frederico para atacar. Bem mais a vontade no calor, ele foi-se embora num instante, deixando-me para trás, num sufoco que durou até a meta. Foi o meu primeiro empeno de calor.

1º Cal Burgart                   4:08:56

2º Frederico Brandão        4:11:29

3º Guillaume Kuchel         4:19:06

4º Ricardo Melo               4:19:12

5º Darby Fultz                 4:25:24

 

Etapa 5 : Monfortinho - Ladoeiro
86 km – 1973m acumulado de subidas

Esta etapa teve a curiosa característica de corresponder na realidade a duas etapas em uma. Devido à nossa passagem na bonita aldeia histórica de Monsanto, foi aplicada nessa povoação uma neutralização de 1h para podermos desfrutar um pouco das vistas, já que Monsanto fica no topo de um monte, e sobretudo do seu aspecto medieval incrivelmente intacto. O dia tinha começado por uma parte fácil e rolante de 35 km. Andámos em grupo num bom ritmo até chegar à famosa calçada romana de Monsanto, bonita debaixo da sua cobertura de carvalhos mas dura e um pouco técnica. Esta primeira dificuldade do dia acabou por uma terrível parede de asfalte de cerca de 200m até a “chegada volante” na entrada do burgo. Claro, o Frederico não se privou de atacar para ganhar mais alguns minutos antes da neutralização e venceu esta primeira etapa do dia.

A saída de Monsanto foi do mesmo estilo que a subida mas a descer. Seguiu-se um single track memorável a descer por cima de grandes rochas antes do qual ainda tivemos que abrandar por termos assustado um burro e esperar que o seu dono o recupere algumas centenas de metros mais a baixo.

Ao km 60 aproximava-se a segunda dificuldade do dia : a subida para a Idanha a Nova num caminho de paralelo muito íngreme e muito exposto ao sol. A temperatura neste dia rondou os 42º, demasiado para mim... O Frederico, o Ricardo e o Darby deixaram-me para trás, sem hipóteses de os seguir tive que abrandar para não me sentir mal. Este foi só o meu segundo empeno de calor mas o pior ainda era para vir.....

1º Cal Burgart                  3:24:49

2º Frederico Brandão        3:55:08

3º Ricardo Melo               3:56:09

4º Darby Fultz                  3:56:36

5º Guillaume Kuchel          3:59:17

 

Etapa 6 : Ladoeiro – Castelo de Vide
108 km – 2371m acumulado de subidas

O dia mais quente : 46º à sombra. Também metade da SuperTravessia, as pernas já se arrastavam um pouco. Embora os primeiros 25 km  fossem planos e sempre a “cepar”, fiquei-me para trás com o Nuno Gomes, consciente que com as minhas dificuldades nestas temperaturas, tinha que ir com calma e aplicar-me para acabar a etapa o melhor possível. A parceria com o Nuno durante quase toda a etapa ajudou-me a encontrar o passo certo quer nas subidas duras e curtas do segundo terço do percurso como na terrível subida depois de termos atravessado o rio Tejo em Vila Velha de Rodão. Realmente tivemos algumas vistas maravilhosas sobre o rio enquanto o estávamos a acompanhar mas a subida para Salavessa foi um verdadeiro calvário. O calor neste vale fechado, ao abrigo de qualquer brisa, era insustentável.

Foram no total cerca de 40 km quase sempre a subir até o último toque de loucura desta etapa : a calçada medieval de Castelo de Vide. Menos técnica do que a calçada de Monsanto não era menos dura. O grau de inclinação ia sempre aumentando ao longo deste último km aos Z’s até passar a muralha desta fantástica aldeia fortificada. Foi o meu pior desempenho nesta SuperTravessia : 7º em 6:14:23. Perdi nesse dia o meu terceiro lugar na geral e passei para 5º.

Destaque novamente para o Sérgio Nunes para o prémio do azar pois teve direito a um furo, uma corrente partida e uma penalizarão de 30mn por ter perdido a sua placa (ainda voltou para trás para tentar encontrá-la mas sem êxito).

1º Cal Burgart                   5:12:34

2º Frederico Brandão        5:24:30

3º Darby Fultz                 5:28:55

4º Ricardo Melo               5:29:34

5º Paul Magnotto             6:04:17

 

Etapa 7 : Castelo de Vide – Campo Maior
85 km – 2033m acumulado de subidas

A região de Castelo de Vide e Marvão oferecem indiscutivelmente uns trilhos extraordinários para a prática do BTT. A vegetação invulgarmente rica também deu um toque especial à primeira metade desta etapa. Tudo começou por uma sucessão de duas subidas muito interessantes : a Serra da Urra e a subida do Marvão. Lá esperava por nós uma descida louca de 2,5 km numa calçada medieval que vos partia literalmente os ossos de todo o corpo. No Marvão o Cal tinha parado por causa de um problema com os seus cranks. Ia valer-lhe 1h de penalizarão por ajuda mecânica mais o tempo que perdeu para arranjar a avaria. Pela primeira vez ele não ia ganhar a etapa. O Frederico, o Darby e o Ricardo isolaram na frente seguidos de Nuno Gomes e eu. Fizemos novamente “equipa” mas desta vez só até a subida de São Mamede. O Paul tinha-nos alcançado e como continuava um pouco mais rápido, decidi ir com ele. Depois do Coll da Serra de São Mamede começamos a descer e entrámos na parte mais plana e rolante da etapa. Desta vez, o calor foi muito mais clemente. Só piorou seriamente no ultimo quarto da prova.

Em termos de classificação geral, o Frederico aproveitou do azar do Cal e passou para primeiro.

1º Frederico Brandão        4:27:00

2º Ricardo Melo               4:27:05

3º Darby Fultz                  4:27:12

4º Guillaume Kuchel          4:37:42

5º Paul Magnotto              4:37:53

 

Etapa 8 : Campo Maior - Monsaraz
109 km – 1993m acumulado de subidas

Bela etapa típica do Alentejo na sua parte menos plana e mais bela, em grande parte ao longo da lagoa do Alqueva. Andámos numa sucessão de colinas suficientemente duras para romper as pernas. O calor, como no dia anterior era cada vez mais suportável e deixava de nos dificultar a vida. As visão desta terra isolada com a forma de uma ondulação perpetua coberta de sobreiros esparsos deixava-nos com a estranha sensação de estar a atravessar um mar petrificado pintado de mil cores. De vez em quando, uns cães enormes saídos de uma qualquer quita, umas vacas sonolentas no meio do caminho ou simplesmente alguma das inúmeras cancelas que tivemos que passar quebravam o nosso ritmo bem afinado.

A dificuldade do dia ficou para os dois últimos km, uma subida dura e técnica para Monsaraz.

Destaque para o Nuno Gomes que caiu a poucos km do final na altura em que o grupo onde seguia comigo desde a partida, juntamente com o Frederico, Darby, Paul e Ricardo partiu-se sob a impulsão do Frederico e do Ricardo.

Caiu de tal forma que a bicicleta foi projectada a algumas dezenas de metros dele e que o seu capacete partiu-se violentamente a meio. Conseguiu no entanto, ligar a meta embora com muitas dores nas costelas.

Destaque também para a Jacquie. Sempre que alguém a alcançava, costumava tentar ir na sua roda o mais possível. Nesse dia, juntou-se ao nosso grupo durante alguns km e deixou-nos parvos quando passou, ao estilo de um lagarto, debaixo de uma cancela que nós não conseguíamos abrir...

Cal ficou em primeiro da etapa e voltou a assumir a liderança da geral embora só com alguns minutos de avanço sobre o Frederico.

1º Cal Burgart                       4:35:05

2º Frederico Brandão            4:55:09

3º Ricardo Melo                    4:55:56

4º Darby Fultz                        5:00:22

5º Guillaume Kuchel              5:02:28

 

Etapa 9 : Monsaraz – Castro Verde
169 km – 2245m acumulado de subidas

Etapa mais longa da SuperTravessia.

Partir para 169 km em BTT sem nunca ter andado mais de que 125 e já tendo nas pernas uns 770 km deixava-me um pouco perplexo. É verdade que esta etapa, a última inteiramente no Alentejo foi bastante plana e rápida. Mesmo assim não queria arriscar e decidi logo a partida de não ia me armar em herói e ia tentar encontrar o companheiro mais adaptado ao meu ritmo. Desta vez, foi com o Darby que partilhei as despesas desta longo dia.

Tudo começou tranquilo. O Ricardo, com os seus 0,2% de bonificações, costumava sair um pouco mais cedo do que eu, Frederico, Darby e Sergio mas nesse dia o Ricardo tinha saído depois de nós. “Problema de despertador”, pensei eu. Este acontecimento fez com que não houve a habitual caça nos primeiros km da etapa para apanhá-lo e que não fui obrigado como nos dias anteriores em me meter no vermelho para conseguir ficar com os da frente.

Depois de termos andado quase 40 km demasiado lentamente para que o Ricardo não nos alcançasse ou demasiado rápido para ainda não termos alcançado o Paul, que tinha uma bonificação de 0,6%, já estava inconscientemente a suspeitar de alguma coisa. Foi uma meia surpresa quando fomos informados que Ricardo já estava a largos minutos a nossa frente. Tinha nos passado em Mourão graças a regra de caminho livre dentro das povoações sem que ninguém desse conta.

Imediatamente o Frederico atacou para tentar apanhá-lo já que o seu lugar na geral estava a ser ameaçado. O nosso grupo partiu-se logo.

Fiz o resto da etapa, uma sucessão de caminhos muito rolantes sem grandes inclinações e em grande parte num ambiente muito agrícola, na companhia do Darby.

Para o Cal foi o segundo dia de azar. Embora não era um terreno propicio a isso, furou varias vezes e ficou sem câmara. Teve que parar num café para remendar. Perdeu imenso tempo, suficientemente para chegar em 7º lugar da etapa e perder o 1º e 2º lugar na geral para Frederico e Ricardo.

Destaque para o Paul Magnotto que fez os últimos 20 km a pedalar de pé na bicicleta por ter partido o selim e também o infortunado Jorge Mendes que não conseguiu chegar a Castro Verde antes do fecho do controlo por causa de problemas mecânicos a 10 km do fim.

1º Frederico Brandão       6:42:50

2º Ricardo Melo               6:52:54

3º Guillaume Kuchel         7:04:40

4º Darby Fultz                  7:06:20

5º Paul Magnotto              7:16:50

 

Etapa 10 : Castro Verde - Rogil
124 km – 2552m acumulado de subidas

O António Malvar tinha-nos avisado que depois da etapa mais longa entre Monsaraz e Castro Verde teríamos que enfrentar uma das mais duras etapas da travessia devido à sua extensão (124km) e ao acumulado positivo (2552m).

Tudo começou bem nos primeiros 25km que iam também ser os últimos na planície alentejana. Depois, abordámos uma serie de sobe e desce que tornava-se cada vez mais difícil ao longo dos km. O Frederico, que tinha que atacar o Cal para poder aumentar a sua vantagem conseguida no dia anterior por causa de problemas mecânicos do veterano norte-americano, foi-se embora nessa altura. Graças a um valente esforço conseguiu o seu objectivo e ficou mais à vontade para ganhar a classificação geral.

Quanto a mim, segui sempre em companhia do Paul. Chegamos juntos ao Vale Porco aonde se desenhava a grande subida do dia. Parámos no Check Point para abastecer em agua (fornecida excepcionalmente pela organização devido às dificuldades em encontrar o precioso liquido no resto do percurso).

Na subida (km 90) o Paul ficou rapidamente para trás enquanto o Ricardo que, penso eu, tinha faltado à sua partida, passava por mim. Nesta altura já estava a molhar de 5 em 5 minutos a minha corrente por causa de falta de óleo. Não tinha levado lubrificante o que tinha sido um grave erro, sobretudo nesta etapa. A terrível subida para a Portela da Brejeira e os 12 km que se seguiam eram feitos num dos terrenos mais hostis para a mecânica. Era uma zona de eucaliptal em plena altura de exploração, as máquinas tinham transformado o solo numa espécie de pó tão fino que era quase liquido. Por baixo, as pedras tornavam a pilotagem ainda mais difícil e desconfortável. Nestas circunstâncias e ainda com subidas íngremes, comecei a temer pela minha corrente e decidi não arriscar em parti-la. Baixei o meu ritmo tentando forçar o menos possível já que a corrente saltava constantemente da pedalaria. Inclusive fiz algumas subidas a pé. Estava com esperança de que o Paul não estivesse muito longe atrás de mim e que pudesse-me emprestar óleo. Infelizmente ele tinha empenado na subida e estava muito longe de mim e só me alcançou a 10 km do fim. Emprestou-me um pouco de óleo e consegui chegar mais descansado cerca de dois minutes depois dele. Finalmente tínhamos ultrapassado a última grande etapa desta SuperTravessia.

De notar que foi também provavelmente a menos bonita pois o cenário no eucaliptal depois de Vale Porco era de uma assustadora devastação e desolação num sítio bonito completamente estragado pela indústria florestal.

1º Frederico Brandão        6:20:08

2º Ricardo Melo               6:33:10

3º Darby Fultz                  6:39:03

4º Cal Burgart                   6:42:03

5º Paul Magnotto              6:49:24

 O dia muito esperado depois de tanto esforço tinha chegado. Era tempo de apreciar a última etapa sabendo que vinha depois o descanso.

A saída do Rogil foi bastante rápida sob a impulsão do João Marques, vencedor da etapa do ano passado que parecia ter vindo para defender o seu bem. Claro, o Frederico não se deixou impressionar e meteu-se na sua roda. Foi, aliás o único capaz de o fazer nessa altura. Formou-se um grupo de perseguidores composto pelo Nuno Gomes, Ricardo Melo, Darby, Paul e eu com algumas dificuldades, como sempre, no primeiro quarto da prova.

Começava a ficar para trás com o Paul nas subidas quando pensei sinceramente em baixar o meu ritmo e apreciar as vistas fantásticas sobre as falésias em Monte Novo. Realmente esta etapa em termos de paisagens foi uma das melhores. Chegámos depois a uma serie de single-track mais técnicos e subidas duras. Curiosamente foi nessa altura que subi em rendimento e comecei a ver que podia-me distanciar facilmente do Darby, Paul e Ricardo. Apertei portanto o ritmo, sem nunca deixar de apreciar o trilhos loucos que nos faziam descer nas praias da Barriga e da Cordama.

Quando vi o Frederico no topo da subida para a Torre de Aspa, pensei que podia ir buscá-lo e se calhar acabar bem esta grande aventura. Consegui chegar-me a ele poucos km antes da meta. Chegámos juntos, eu à frente pois num gesto de cortesia o futuro vencedor da geral deu-me o segundo lugar da etapa, atrás do Cal.

1º Cal Burgart                   2:44:04

2º Guillaume Kuchel         2:58:59

3º Frederico Brandão        2:59:00

4º Ricardo Melo               3:08:06

5º Darby Fultz                 3:08:26

 

Epilogo

Foi cumprida a tradição na SuperTravessia pois fomos todos para a água, já que a chegada era mesmo na principal praia de Sagres. A Jacquie não se conformou e também saltou para o mar.......nua. A primeira mulher a participar e concluir a Super travessia afirmou-se de uma maneira excêntrica e muito divertida e deu a esta prova mais um toque especial quando voltou a cantar as suas "SuperTravessiadas" ou baladas um pouco ao estilo norte-americano “country” antes da cerimonia protocolar dos prémios.

O Frederico foi o grande vencedor desta prova, embora ele próprio tenha lembrado que só ganhou pelo facto de o Cal ter tido problemas mecânicos. O Ricardo já está no seu segundo 2º lugar o que vai obrigá-lo a estar presente na próxima edição já que não quer ser lembrado como o Poulidor desta prova. O impressionante jovem Cal só pode voltar já que para o ano terá 62 anos e ainda mais bonificações e portanto mais hipóteses de ganhar.

Foi bastante emotivo dizer adeus a esta gente toda com quem tenho partilhado estas peripécias todas. Foram momentos de grande beleza, de grande camaradagem e sofrimento mas também de grande satisfação pessoal após o final.

Um grande parabéns ao António Malvar, Berta e a todos os que organizaram esta aventura porque realmente é de se tirar o chapéu....

 

Classificação Geral – Tempo - Bonificação :

1º Frederico Brandão       54:37:36       0%

2º Ricardo Melo               55:32:05       0,2%

3º Cal Burgart                  55:38:24       16,3%

4º Darby Fultz                 56:17:16       0%

5º Guillaume Kuchel         56:52:53       0%

6º Paul Magnotto             58:48:36       0,8%

7º Nuno Gomes                60:09:57       0,2%

8º Jacquie Phelan            66:11:04       16%

9º Sergio Nunes              69:14:15       0%

10º Mário Soares            88:10:24       1,9%

 

Patrócinios, agradecimentos :

Férrinha, Industria Metalica e Contentores

Novis Telecom

Maiacycles

Magikseal

http://www.bttmania.net