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Caminhos de Santiago (28-29/08/04)

1ª etapa, Modivas – Pontevedra 160 km 

A saída foi um pouco húmida e escura pelas 7h30 da manhã. Enfiei-me na EN 306 que passa bem perto de casa e comecei a seguir as famosas setas amarelas. Em Rates, um pouco mais de uma hora depois encontrei os patus que estavam a sair do pequeno almoço e a resolver uma afinação de alforge. Segui um pouco com o grupo antes de continuar a minha peregrinação ao meu ritmo já que tinha previsto chegar pelo menos até Redondela nesse primeiro dia. Como já estava a espera, a parte do caminho até Ponte de Lima, tinha muita estrada de paralelo ou que permitia um andamento relativamente rápido. Pude contudo apreciar a tranquilidade do mundo rural característico desta região e o espirito cultural que o caminho pretende transmitir aos peregrinos ao passar por inúmeras igrejas, santuários, cruzeiros, etc...

A subida que se seguiu, até a casa do guarda florestal, já custou mais sendo o trilho mais adaptado á caminhada pedestre que ao andamento velocipédico obrigando a uma portagem de várias centenas de metros com um grau de dificuldade e inclinação notáveis num quadro de pinhal rochoso fantástico.

Depois de passar o rio Lima quase fiquei dono de um bonito cão ruivo visivelmente abandonado. O animal perdido aproveitou-se de eu estar igualmente perdido para pensar que estava a procura dele... Começou então a seguir-me como uma sombra. Acabou finalmente por desistir ainda na zona de habitações numa descida rápida.

O meu objectivo era almoçar em Valença onde cheguei por volta das 2 da tarde aproveitando a zona verde do castelo para almoçar umas sandes de queijo e fiambre e encher os bidons na providencial fonte que estava ali.

Tinha decidido dois bidons de 750 cl em vez do camelback já que a minha expectativa era de encontrar espalhadas pelo caminho mil e uma fontes para abastecer. Sendo assim levei as minhas coisas nas costas num saco substancialmente mais leve de que um camelback de 3l cheio. Claro, só levei o estrito necessário e o mais leve possível mas acho que foi a escolha mais correcta pois estava bastante confortável e nada limitado na pilotagem quer nas subidas como nas descidas.

Depois de passar Tui, cuja Sé encantou-me completamente, encontrei o Rui Fernandes e o seu cunhado com quem fiquei com muito bom gosto até Mós, antes de Redondela.

Quando cheguei em Redondela, por volta das cinco (hora espanhola) decidi que era ainda muito cedo para parar. Prossegui então até Pontevedra onde cheguei já perto das sete e trinta. Gostei imenso da minha primeira experiência em albergue e fui surpreendido pelo nível de conforto que aquilo oferece. Mais obviamente previsível foi a simpatia das senhoras que estavam lá a tomar conta do refugio. Ficaram um pouco perplexas quando viram que vinha de Vila do Conde e que não tinha nenhum carimbo na minha credencial. É que assim não ia poder receber a compostella. Respondi que não fazia mal já que mais tarde ou mais cedo irei de voltar a fazer o caminho. De facto, sendo um ateu a fazer o caminho de maneira exclusivamente desportiva não vejo interesse em receber um documento híbrido inspirado na verdadeira compostela religiosa. Acredito no poder espiritual de uma tal experiência e é por isso que fiz conta de o fazer sozinho mas acho que há que ter respeito para aqueles que assumam a peregrinação como um ritual ou dever religioso.

 

 2ª etapa, Pontevedra - Santiago 60 km 

No primeiro dia, já dava para perceber que o caminho na parte espanhola do caminho estava bastante mal sinalizado e as dificuldades de orientação tornam-se ainda maiores nas cidades.

Em Pontevedra, perdi completamente o percurso pouco depois de passar pelo centro histórico. Era de manhã cedo por volta das 8h30. Ainda tentei pedir o meu caminho mas a direcção que foi dada várias vezes era a N550 que ia para Santiago ou que de certeza não era o seguimento do caminho. Fiquei furioso comigo próprio por nem sequer ter pensado em levar o track do caminho...

Depois de alguma hesitação decidi não perder mais tempo a procura das setas e meti-me na estrada nacional, esperando encontra-las na próxima cidade. O meu plano de regresso por comboio não era dos mais seguros e queria chegar o mais rápido possível a Santiago.

Quando em Briallos e depois em Caldas de Reis não vi nenhuma indicações sobre o caminho decidi seguir até Santiago pela estrada, já que tinha perdido uma parte relevante do traçado original. Seria para uma próxima vez....

Cheguei a Santiago ainda antes do meio dia. Com o meu comboio ás 14h05 deu para dar umas voltas no centro desta magnifica cidade histórica. As ameaças terroristas da véspera emitidas pela ETA não desencorajou os milhares de turistas de invadir as ruas estreitas da cidade-sanctuaria.

O regresso fez-se por comboio até Redondela. A RENFE fornece um serviço bastante bom para levar a bicicleta em todos os seus comboios regionais num compartimento especial na última carruagem.

Retomei a bicicleta pela EN 550 e depois o caminho em sentido contrário para ligar Redondela à Valença, já que a linha internacional Vigo-Porto só tem dois comboios. Um de manhã e outro no fim da tarde. Estranho para um futuro eixo de TGV.....

Meter a bicicleta no comboio em Portugal onde o sistema é muito similar ao espanhol. Temos um compartimento na última carruagem onde ficam as bicicletas. Existe no entanto algumas diferenças lamentáveis. Uma delas é o facto de se ter que pagar um bilhete para a bicicleta de 2€ (independentemente do destino). É obvio que para muita gente isto não é um problema visto que “já é bom assim”. Mas francamente, este acréscimo ao custo da viagem mostra de uma maneira prática a boa velha chulice portuguesa. Faz sentido fazer pagar um serviço que do outro lado do Minho é grátis ? Não é só em Espanha, em França também é de borla e as condições são outras...

Além dessa vergonhosa política de puro aproveitamento, pude notar a imaturidade deste serviço e o nível de burocracia que engendra : um bilhete para a bicicleta ????

Também tive direito ao discurso (completamente grátis ele) do controlador que afirmava que só ele podia autorizar a bicicleta a entrar no comboio, que eu tinha que ficar no furgão com ela porque a CP não se responsabilizava, etc... Era mais um daqueles que gosta de falar mas esquece que quanto mais se fala mais javardices se dizem...

 

Conclusão daquilo tudo : fiz o caminho mas faltei a última parte. Mesmo assim valeu a pena porque foram muitas primeiras experiências em só dois dias. Hei de repetir a dose um dia, nem que seja para conhecer a parte Pontevedra-Santiago. O regresso de comboio é uma óptima escolha porque faz parte da aventura da peregrinação. Da próxima vez optarei com mais calma pelo Santiago-Vigo do fim da tarde e do Vigo-Porto das 7.