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Em contramão

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A solução final (20/10/03)

 

Nas estradas portuguesas, para salvar a sua pele, tem que se ter muito cuidado. A lei do mais forte reina de toda a sua esplendidez selvagem e brutal. As máquinas automóveis são as armas de um combate perpétuo onde a raiva e a violência são o combustível. Não existe piedade para ninguém e todos os golpes são permitidos para dominar o seu adversário. É a lei da selva, a natureza humana no seu estado puro, gravado nos genes de cada um, uma autêntica barbaria digna dos nossos antepassados mais sanguinários… Tenham cuidado porque não é nenhum jogo. Um dia somos um deus do volante, um ás do contador de rotações, não temos medo de nada nem de ninguém, e depois, no dia seguinte, acordamos numa cama de um quarto branco e estéril, um tubo na garganta ao lado de uma máquina-acordeão  afona que parece vomitar a morte e de dois ou três outros futuros cadáveres. Ao volante, não se deve brincar ao palerma se não queremos acabar com um nome de legume tatuado na testa…

De bicicleta, ainda é pior. Neste caso, mais vale ser atento em cada instante porque os ciclistas tornam-se em verdadeiros alvos muito fáceis de abater. Eles têm menos hipóteses de sobreviver de que um simples pombo de tiro à carabina. Aliás, eles sabem que não são os bem-vindos nas nossas estradas. É por isso que são discretos. Eles vão se refugiar nos trilhos e no monte, como as presas, longe dos predadores e da morte. Até mudam de nome e de equipamento. B.T.T. que dizem : Bicicleta Todo Terreno. Eu diria mais : Bestas Todo Terreno, como os Ciganos. Quando damos lentamente cabo deles para que nos deixem em paz, tudo o que encontram para fazer é arrumar as coisas e ir instalar-se 50km mais longe e continuar a nos chatear. Se queremos realmente nos livrar deles teremos que pensar numa solução mais radical...

Os ciclistas são como os Judeus e os homossexuais, toda a gente sabe que existem mas ninguém sabe aonde estão nem quem são. São obrigados a refugiar-se no todo terreno ou nas estradas secundárias de paralelo cheias de buracos para sobreviver. É o que acontece às pessoas indesejáveis…
Pelo menos, no monte, não chateiam ninguém e têm muita ocupação : entre o estudo aprofundado do eucalipto lusitano, a descoberta do esquilo ibérico e o inventário das lixeiras piratas, há muito que fazer.
E, entre nós, não é porque eles encontraram um novo terreno de jogo que eu irei perder a esperança de os mandar todos para o inferno. Quando puseram os Índios da América nas reservas era supostamente para os proteger e mesmo assim conseguiram exterminá-los quase até ao último !

Na estrada, um ciclista é algo que incomoda. Anda devagar e sempre no meio da estrada. Passa os semáforos e os stops de qualquer maneira, arranca os retrovisores laterais e risca as portas, anda sem luzes, nos passeios, atropela os peões (isto até é bem feito...) e insulta as lindas meninas que passeiam inocentemente. Em resumo, os ciclistas são uma raça de nojo, não os aguento. Só o facto de os imaginar bem apertados nos seus vestidos de lycra com os seus capacetes  bem estilizados a mamar o biberão ou a mastigar barras de cereais me dá vontade de vomitar. Às vezes sonho que dou cabo de um deles, que lhe faço provar o aroma do asfalto passando-lhe por cima e partindo-lhe todos os ossos, e que o arrasto, quilómetros e quilómetros, preso por um farrapo de carne até desmembração completa.

Creio que não devemos ter piedade dos ciclistas. São pessoas que se acham superiores e que não respeitam os valores fundamentais da nossa sociedade. Eu empenho-me como um louco para poder andar de BMW, para mostrar que existo e que não sou miserável. É o meu estatuto. O BMW é a base de todo respeito. Com ele, as portas abrem-se, as pessoas ouvem quando falamos. Aos olhos dos outros tornamo-nos num cirurgião, num cantor popular, num agente desportivo, num executivo ou simplesmente num engenheirozito qualquer, tornamo-nos em Alguém…  « Tenho um grande carrão portanto sou ». O BMW, é o catalisador ideal para transformar o desprezo e a piedade do olhar das pessoas em admiração e contemplação.
Mas é verdade, um carro como este, não é nada barato. Temos que fazer sacrifícios. Aliás, em nossa casa, toda a família participa. Por exemplo, já não vou ao café que três vezes por semana. A minha mulher, que remédio, já não vai à depilação que  todos os seis meses. Tenho também dito ao meu puto que ia muito em breve começar a ajudar-me na fábrica. De qualquer maneira, na escola, não valia nada. Mesmo o pitt-bull faz um esforço valente : da outra vez quase que devorou a minha filha mais pequena tanto que estava esfomeado…

E enquanto eu faço sacrifícios para parecer bom homem, estes senhores das pernas fortes andam de BICICLEEETA. O que é isto ? O terceiro mundo ? Fizemos a revolução para 4 tubos, 2 rodas e as vezes um selim...? Onde está o vosso respeito para os valores portugueses ? Não têm necessidade de um grande carrão para vos sentir respeitados se calhar ? Palermas !
Ainda bem que a República continua a apoiar gente como eu. Afinal, ainda represento uma maioridade neste país !
Pois é ! Na estrada, quem for motorizado tem todos os direitos portanto se o ciclista não acaba debaixo do nosso chassi, será contra o pára-choques de um outro, debaixo de um autocarro de escola ou contra um camião pesado. O pior é que em quase todos os casos o ciclista é que será culpado… Excelente não é ?

Felizmente, as leis estúpidas para proteger os ciclistas que existem um pouco por todo o lado na Europa ainda não chegaram até Portugal (não há só inconvenientes em ter constantemente 20 anos de atraso em relação aos outros países da U.E). Aqui, eles ainda não beneficiam da prioridade a direita, nem sequer também no sentido da marcha nas intersecções e cruzamentos não sinalizados e estes são muitos em Portugal, cada um mais esquisito do que o outro. Até de carro, as vezes, é complicado estabelecer com clareza uma ordem de passagem portanto o desgraçado de ciclista está mesmo tramado. Ainda por cima, a lei está tão bem escrita que ao fim ao cabo está completamente incompreensível para uma boa parte da população. Muitos automobilistas entendem e agissem como se os ciclistas tivessem de dar a prioridade em qualquer situação mesmo quando os sinais de trânsito indicam o contrário. É aliás um excelente jogo : não parar nos stops e passar a frente dum cromo em bicicleta insultando-o e queixando-se de que ele não tinha prioridade. Muitos devem esticar a perna assim...
Também pode-se ultrapassar um ciclista passando-lhe a 10cm dos pedais se quisermos. O problema é dele visto que ele tem a obrigação de andar o mais a direita possível na estrada, ou seja,  nos buracos e nos pedaços de vidro... Aliás, os motoristas de autocarros têm muito gosto em limpar o lado direito dos seus veículos com panos vivos e móveis de duas rodas...
Também pode-se, a vontade, ultrapassar um veículo sabendo que um ciclista vem em sentido contrário. Em geral, há sempre espaço para mais um carro e não é, de certeza, um ciclista que poderia fazer alguma diferencia... Se não resultar e se o automobilista estiver posto em causa, basta dizer que o ciclista desviou-se bruscamente sem nenhuma razão da sua trajectória, que veio embater no carro enquanto fazia a ultrapassagem e que embora o condutor tivesse avisado da sua manobra com múltiplos toques de buzina não foi possível evitar o acidente.

Há mil e uma maneiras de tramar um ciclista. Não há portanto razão nenhuma para perder a esperança de ver um dia as nossas bonitas estradas limpas daqueles parasitas velocípedes. Todas as vantagens são do nosso lado. Mesmo o código da estrada quer dar cabo deles ! Devemos, portanto levar até ao fim a exterminação antes de que seja tarde de mais, antes de que a assimilação europeia consegue nos privar de comportamentos únicos e raros que constituem toda a riqueza da nossa identidade. Temos que acabar uma vez por todas, é tempo de passar ao acto...