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MetroPolis, a cidade do futuro (01/12/02)
Depois de quase 10 anos de esperança, desde a altura em que o primeiro projecto de transporte metropolitano de superfície foi pensado, chegou a hora de elogiar o resultado que mudará certamente a rosto da cidade invicta. O metro desde já mostra a sua identidade e com o seu estilo futurista prova o que nunca deixou margens para dúvidas: veio para ficar. Para dizer a verdade, a questão da mobilidade no Porto é uma tal miséria que qualquer projecto tinha servido para melhorar a situação mas o facto é que o Metro vai ser, de certeza um projecto de sucesso. Sucesso porque é bonito e vai atrair os jovens, sucesso porque irá além do transporte urbano abordando o aspecto do transporte peri-urbano usando as antigas linhas da CP, sucesso porque vai chegar a muitas zonas do Grande Porto, Maia, Gaia, Gondomar, etc... Finalmente, sucesso porque
vai no sentido da afirmação da identidade portuense.
Realmente, isto parece muito bonito e quem não for toxiclodependente poderia facilmente pensar que não há críticas a fazer ao Metro. Ora acontece que o Metro do Porto teve como base de projecto o Tram de Estrasburgo cuja primeira linha foi posta em serviço em 1994. Nessa altura e sobretudo graças às obras iniciais do Tram, a capital alsaciana desenvolveu uma centena de km de ciclovias. Hoje tem mais do dobro e 10% das deslocações urbanas feitas de bicicleta. O objectivo é atingir os 500km de ciclovias em 2005 e chegar aos 25% das deslocações o que representa um custo médio de 2,3M€ por ano.
O interesse de Estrasburgo no uso da bicicleta começou em 1989 quando fez parte dos membros fundadores do "Club des villes cyclables" mas só a partir de 1994 com a entrada em funcionamento do Tram e da assinatura da "Charte Vélo" foi integrada numa política global de transporte alternativos. Em 1996, a lei sobre a qualidade do ar para as cidades de mais de 100000 habitantes veio reforçar a ideia de devolver às pessoas, com ajuda dos transportes alternativos, a qualidade de vida que o uso do carro lhes tirou. O resultado é que hoje, Estrasburgo é a cidade mais ciclável de França e toda a política que a levou a este estatuto foi pensada e aplicada a volta de uma grande obra: o Tram.
É obvio que o Porto não é uma cidade plana o que à primeira vista deixa pensar que não é muito favorável ao uso da bicicleta. É por isso preciso relativizar na comparação com Estrasburgo que neste aspecto tem um relevo completamente neutro. Contudo, há muitas partes do Porto e dos seus arredores que são propícios ao uso da bicicleta tal como a entrada na cidade pela via rápida, toda a zona do Parque da Cidade e da Boavista, a circunvalação, a marginal desde o centro de Matosinhos até a rotunda do Freixo e em geral toda a zona alta da Invicta. Além dessas possibilidades, o Porto teve uma inestimável grande vantagem para ter oportunidade de conceber um plano coerente de transportes alternativos incluindo a bicicleta: as obras do Porto 2001 e o programa Polis. Com tantas frentes de restruturação das vias públicas o Porto passou ao lado duma chance
única de reinventar a deslocação urbana por bicicleta. Em vez disso, existe a volta do Metro do Porto uma ausência consternante de inovação e imaginação para fazer desta obra um projecto global na luta contra as filas de trânsito. Para já nada foi feito para facilitar a vida aos ciclistas, nem infra-estruturas, nem leis. Mesmo com base no exemplo de Estrasburgo, não houve a mínima preocupação para incluir a bicicleta na nova política de transportes portuense. Isto prova que em Portugal, só há uma coisa que conta: a imagem. O mais importante era mostrar capacidade para fazer um Metro, acalmar o povo e dizer: "toma-lá, um Metro para ti e cala-te agora", não ir além do necessário, não optimizar. Não ser visionário é como encerar um móvel todo podre, é perder tempo...
Mesmo se a comparação com o projecto alsaciano possa parecer injusta e desequilibrada lembrem-se da proeza do Porto que na alvorada de 2003 e depois de tantas obras, sejam elas a do Metro, do programa Polis ou do Porto 2001, tem 0 metros de ciclovia, 0 euros gastos a favor dos ciclistas. Parabéns!!!

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